Sunday, 15 April 2012

Carmen Miranda talks to 'Revista do Radio' 1955

Carmen Miranda had a serious nervous breakdown in mid-1954. Her doctor in Beverly Hills, California, warned the family he couldn't do much about Carmen's deep depression and advised she should be brought to Brazil. Maybe seeing her old country again would restore her health and she might 'pick up' again.

Carmen flew down to Rio and stayed at the Copacabana Palace as a guest-of-honour for a few months. She did pick up again after a few weeks and she even made several public appearances at radio stations, balls and private parties. Carmen stayed in Rio for the 1955 Carnival and was photographed having fun at some places during those festivities.

She was summoned back to the States by her husband Dave Sebastian who would pester her over the phone saying she had a lot of contracts to fulfill. Carmen fell for this talk and flew back to the USA on 4 April 1955. Exactly 4 months later, on 5 August 1955 she was found dead in her bedroom in Beverly Hills... she had a massive heart attack just when she was preparing to go to bed after a hard day's work doing the Jimmy Durante Show at NBC. Carmen's cold body was found by her Hispanic maid the morning after   

In January 1955, Carmen Miranda gave a long interview to Revista do Radio in Rio de Janeiro. Here's what La Miranda told the reporter from that weekly magazine. 



Carmen Miranda em Janeiro 1955 no Copacabana Palace, em 4 páginas de entrevista da famigerada Revista do Rádio.  


Carmen Miranda concede entrevista à Revista do Radio em Janeiro 1955.

Carmen Miranda faz declarações exclusivas e sensacionais para a Revista do Rádio

Carmen Miranda nos recebeu no apartamento 71 do Copacabana Palace Hotel. Tivemos oportunidade de conversar longamente. Ela não escondeu fortes emoções diante de algumas das nossas perguntas. E por isso não abordamos diretamente sua enfermidade, que não é outra coisa senão um agudo esgotamento nervoso. E iniciamos:

- Por que demorou 14 anos em vir ao Brasil?


- Compromissos contratuais. Nos Estados Unidos minhas atividades dividiram-se entre o cinema, radio teatro e TV. E não sobrara tempo para viagens de férias.

- Carlos Machado ofereceu-lhe contrato para trabalhar num espetáculo aqui no Rio?

- Sim, mas isso já faz tempo. E o lado financeiro, apesar de elevado, não compensava em relação ao que eu ganhava na América.

- E você, um dia, não pretende voltar definitivamente?

- Por enquanto ainda não pensei nisso.

Um dos assuntos que despertam curiosidade entre o povo é a fortuna de Carmen Miranda. Porém quando pretendemos conhecer seu valor, ela replicou graciosa:

- Isso é a mesma coisa que eu lhe perguntar quanto tem agora no bôlso.

- Pois não, Carmen, respondemos, 230 cruzeiros... E você?

- Aqui nada!

- Não é verdade que possui edificios de apartamentos na Tijuca?

- Não. E nem pretendo comprar nenhum.

- Entendemos que todo seu dinheiro está depositado em bancos americanos. Você declararia quanto paga de impostos anuais?
- Isso varia muito. Adianto apenas que em 1951 fui a artista que mais pagou impôsto-de-renda nos Estados Unidos.

Em 1940, quando Carmen voltou ao Brasil pela primeira vez - justamente um ano depois de sua ida - houve um incidente no Cassino da Urca. Como devem estar lembrados os leitores, ela lá se apresentou e cantou dois números. Os granfinos que lotavam as dependências resolveram hostilizá-la e não a aplaudiram. Provocaram uma verdadeira 'vaia silenciosa', que Carmen nunca esqueceu. Sem pretender relembrar isso, indagamos:

- Consta que o Cassino da Urca vai reabrir. Você concordaria em cantar lá, numa grande festa que pretendem realizar?

Carmen, tomada de surprêsa, não escondeu um certro desapontamento. Os olhos encheram-se de lágrimas e, inteligentemente, fugiu do assunto:

- Não sei. Talvez na época eu nem esteja aqui.

E nós a ajudamos a distanciar-se mais ainda:

- Quantas bahianas completas você tem?

- Trinta! Cada uma mais bonita...

- E quantos vestidos?

Aqui Carmen Miranda nos olhou espantada. E só depois de explicações respondeu:

- Duzentos e cinqüenta! Entretanto a maioria é constituida de trajes esportes.

Alguns jornais afirmaram que Carmen veio ao Brasil esquecer David Sebastian, de quem pretendia divorciar-se. Ela negou tudo, revelou que o seu marido ficara no 'batente' e que não queria separar-se dele. Contudo, ainda dentro do aspecto sentimental, procuramos confirmações sôbre notícias antigas.

-Nos seus primeiros meses em Hollywood houve mesmo um romance com Don Ameche?

- Don Ameche? Casado e com 8 filhos? Eu, heim!

Houve sorrisos e prosseguimos intima e animadamente:

- Você gravaria uma musica para o Carnaval dêste ano?

- Não, negou ela. Mas aprenderei algumas.

- Já conhece e sabe dançar o baião?

- Um pouquinho. Até que é gostoso.

- Por que tingiu os cabelos?

- Para as filmagens de 'Copacabana' em 1947. Depois deixei-os ficar assim, pois se tornaram mais fotogênicos.

- Em Hollywood conheceu ou foi procurada por Martha Rocha, nossa Miss Brazil?


- Não. Dela apenas ouvi referências. Mas poderia ter ganho o primeiro lugar. Sabe com é, tudo feito pelos americanos.

- O que você fazia nos Estados Unidos para matar as saudades do Brasil? - Reunia brasileiros em minha casa. Os bate-papos eram agradáveis e bem brasileiros. A diferença entre eles e êste está em que neles eu respondia menos e perguntava mais.
- Como recebeu a notícia da morte do Presidente Vargas?

- Da forma que qualquer pessoa afastada do Brasil há 15 anos poderia receber. E por ser extremamente apolítica, não quero comentar o assunto.

Carmen Miranda tem razão em desconhecer muitos fatos relativos à vida artística, cultural e política do Brasil. Raramente recebe publicações nacionais. E soube externar isso muito bem.

- Só dificilmente chegavam às minhas mãos jornais ou revistas brasileiras. Nem o Consulado Brasileiro de Los Angeles me dava notícias daqui.

- E soube do que aconteceu com Ava Gardner no Galeão?

- Quase nada. Numa revista americana ela dizia estar magoada com a imprensa brasileira.

- E você está a par dessa onda das fans de Emilinha Borba e Marlene?

- Absolutamente não!

- Essas duas cantoras poderiam fazer sucesso no estrangeiro?

- Depende. Quem entrar com o pé direito terá maiores chances.

- E você opiniaria sôbre elas?

- Seria impossível, apesar da melhor boa-vontade. Que posso eu dizer? Lembro-me de Emilinha, do tempo que ela atuava no Cassino da Urca, e de Marlene conheço apenas referências.

- Então você não conhece os sucessos delas?

- Não o suficiente para me externar bem. Aqui ouvi falar muito em cantoras nacionais , como Emilinha, Ângela Maria, Dyrcinha , Nora Ney e Isaurinha Garcia. Mas não ouvi nada delas, nem em gravações.

Carmen Miranda não mudou. Continua aquela mesma criatura ruidosa e alegre, simples e comunicativa. Aproveita a menor oportunidade para fazer blagues. Realmente está doente, e diz, jocosamente:

- Eu tenho é tremedeira!

Seus olhos possuem aqueles brilhos que os tornaram inconfundíveis. Emagreceu e está mais bonita. E na despedida cedemos ao desejo da última pergunta:

- Carmen, você não sonha com um herdeiro?

- Claro que sim. Mas infelizmente aquêle que eu tanto desejara, perdi antes do seu nascimento.

Dias depois de nos transmitir essas declarações, Carmen Miranda concedeu uma entrevista coletiva à imprensa. Compareceram repórteres, fotógrafos e radialistas. Houve confusão e um verdadeiro bombardeio de perguntas. E de tudo o mais pirtoresco foi a 'torcida' de Aurora Miranda. Para cada resposta da Carmen havia uma expressão de contentamento em seu rosto. As duas irmãs são muito unidas.

Revista do Radio de 29 Janeiro 1955.



Revista do Radio de 29 Janeiro 1955.


4 páginas de uma entrevista focada em factos passados há mais de 14 anos. Jornalismo anacrônico!

comentário

A entrevista feita pelo reporter da Revista do Radio é sádica e de má-fé. O jornalista cria um factóide do mais mentiroso - uma provável reabertura do Cassino da Urca, quando todo mundo sabia que o jôgo-de-azar fora proibido em 1946 ad eternum - para remexer na ferida da 'vaia silenciosa' que Carmen recebera em 1940, da granfinagem carioca, na famigerada noite-de-gala promovida pela sra. Darcy Vargas. Carmen fica triste e com os olhos marejados de lágrimas e o jornalista percebe que 'passou dos limites', pois afinal está entrevistando uma pessoa fragilizada por um colapso nervoso recente. Jornalistas em geral, gostam de colocar seus entrevistados em situações embaraçosas, mas esse tem falta total de sensibilidade.

Depois de enfiar a faca na ferida e retorcê-la, o sádico muda de assunto e fala de suas 'bahianas' e pergunta quantos vestidos ela teria. A pergunta é tão absurda para quem vive nos USA, que demora um pouco para Carmen entender o sentido. Logo em seguida o mesmo infeliz ultrapassa o bom senso e pergunta, à queima-roupa, quanto dinheiro Carmen tem depositado em bancos norte-americanos. Isso não se faz em país civilizado. Assim mesmo Carmen não perde a compostura.

O sadismo do jornalista vai até o final da entrevista, quando escolhe, como última estocada de seu punhal, o assunto do aborto involuntário que Carmen teve em passado recente. Pergunta-lhe se ela não queria um 'herdeiro', quando todos sabiam que Carmen já tinha passado da idade de engravidar. Carmen, assim mesmo não se recusa a responder. A sinceridade dela vence a covardia e calhordice dele.

Na verdade não há uma pergunta inteligente siquer nessa reportagem. O boçal pergunta-lhe sobre a briguinha entre fans de Marlene e Emilinha Borba. Se vê que a cultura nacional se resumia a brigas de fan-clubes em 1955.

O jornalista está tão anacrônico, que para dar 'molho' à entrevista, pergunta à Carmen sobre um possível romance que teria havido entre ela em o ator Don Ameche... em 1941. Um assunto com 13 anos de defasagem.

Pergunta também sobre um incidente que houve entre Ava Gardner e jornalistas brasileiros no Galeão ha algum tempo antes. O que Carmen poderia saber sobre um assunto tão desagradável como esse, acontecido aqui e não lá, na California, onde ela morava?

As quatro páginas de entrevista é um exercísio em futilidade e má-fé. O entrevistador teve as piores das intenções e se comportou como um grande imbecil. Perdeu uma oportunidade ímpar de se aprofundar em assuntos interessantes para repisar fatos e factóides anacrônicos. Tudo ficou um chove-não-molha, uma lenga-lenga da mais sem-graça possível. Nota zero para a Revista do Radio.

9 February 1955 - Carmen Miranda on the day she became 46 years-old - being the special guest of Angela Maria on Radio Mayrink Veiga - these guys were chosen the best of 1954: first row from left to right: Rubens Amaral, Antonio Carlos, Cesar de Alencar, Luiz Mendes; in the back: Lucia Helena, Carmen Miranda, Olga Nobre e Angela Maria. 

Carmen abraça o Rei Mômo durantes os festejos do Carnaval de 1955.
Grande Othelo diverte Carmen Miranda em 1955 no Rio.
their zany routine continues...

5 March 1955 - Revista do Radio's editor Anselmo Domingos wrote his impressions of Carmen Miranda he saw in Rio on 9 February 1955 - her birthday - at the Clube de Cinema. Anselmo probably didn't know the depth of Carmen's illness and the irreparable damage done to her mental health by those infamous shock treatment she was submitted in California to get her out of a deep depression. 

Anselmo thinks it 'quaint' that Carmen is constantly touching and embracing Angela Maria (quase sempre agarrada a Angela Maria) and calling her 'moreninha' affectionately (chama-a de 'moreninha') which was not politically correct. It implies racism - especially for someone like Carmen who had lived 15 years in a notoriously segregated US society. 

In the second paragraph, Anselmo Domingos suddenly tells the truth when he writes: 'A impressão que se tem é de que Carmen Miranda está quase autômata, de que tudo é mecanizado, desde o sorriso até as respostas, que tem sempre prontas.' The impression one gets is that Carmen is an automaton, everything is mechanized from her smiles up to the answers she's got on the tip of her tongue'.

Domingos says old-timer singer-song-writer Herivelto Martins came up to Carmen and gave her a hug. After that Miss Miranda asked someone who was that man. She didn't have a clue who Herivelto Martins was. He was an image that her California shock-treatment must have erased forever. A little later popular radio man Jorge Murad arrived but Carmen could not remember him at all.

Even though Anselmo Domingos don't spell it out in the article he must have noticed that something terribly wrong was the matter with Carmen. At a certain point he asks her whether she was happy. Miranda answers it next to his ears: 'Today I'm very happy. It's my birthday!' Anselmo insisted asking whether she felt happy on other days too?

Carmen smiled, lighted another American cigarette, searched for a glass and instead of answering she retorted: 'Don't you dance?' and said nothing else.  

No comments:

Post a Comment