Monday, 27 February 2012

Vadico escreve a Joel de Almeida em 1941

14 Agosto 1944.
Reportagem da revista Carioca de 31 Maio 1941.

Oswaldo Mogliano (Vadico)
1242 North Fairfax Ave.
Hollywood, Los Angeles, California
U.S.A.

Mr. Joel de Almeida
Radio Nacional
Edifício 'A Noite', 22o. andar
Praça Mauá
Rio de Janeiro, Brazil


Envelope de carta enviada por Vadico de Hollywood, California para Joel de Almeida, no Rio de Janeiro-DF.

SEGUNDA CARTA A JOEL



Revista Carioca - 31 de Maio de 1941.

Roubada da mala particular de Oswaldo Gogliano [Vadico] - Fez sucesso a primeira carta de Vadico a Joel - Hoje, subtraimos da mala particular desse cantor e compositor a missiva que se segue:

Hollywood, California 10 Maio 1941.

caro Joel,

Era meu desejo começar esta carta com meia duzia de palavras impróprias para menores e senhoritas, evitando, assim, que você fizesse o que fez com a outra, publicando-a na Carioca. Porém, como sou um 'bom menino', resolvi, seguindo aquele velho ditado, 'deixar como está, para ver como é que fica'.

Você não sabe a trapalhada que me arrumou, publicando também o meu endereço. Imagine que voltando de Tijuana, Mexico, onde estive em 'férias forçadas', afim de conseguir um visto de imigrante para os Estados Unidos, encontrei dezessete cartas a mim dirigidas por fans brasileiros, solicitando retratos de Carmen, Bando da Lua, Zezinho e eu, assim como de vários artistas cinematográficos.

O pior, porém, não foi isso. Entre essas cartas havia uma de minha mãe, dando-me um verdadeiro baile e ameaçando escrever para minha noiva, em New York, contando as minhas 'proezas' aqui em Hollywood. Você sabe, todas as mães são assim, e, não fugindo a regra, a minha julga que eu ainda sou aquele menino de cachos, que usando uma capinha vermelha da 'santa infância', ia, aos domingos, assistir à 'missa das oito' na igreja da esquina. Hoje, tudo mudou, a única missa a que eu poderia assistir seria a do 'galo' que é a meia-noite e, a essa hora, geralmente, eu estou acordado.

Pois é, meu velho, aqui está fazendo um calor dos diabos e, pensando nas nossas maravilhosas praias aí do Rio, as saudades aumentam. Não havendo outro recurso, 'fantasiei-me' de Tarzan para não sentir muito calor, porém, olhando a propria 'carcassa', lembrei-me daquele samba do saudoso Noël, que dizia assim: 'Quem foi que disse que eu era forte... nunca pratiquei sport nem conheço football'...

Por falar nisso, sabe da última? As Andrew Sisters gravaram a marcha 'Aurora', cantada em inglês e em ritmo de fox-trot. Com isso, eu só posso dizer que você e Gaucho estão com a 'burra' da sorte, pois o nosso querido 'Cai, cai' vai de vento-em-pôpa e, agora, eu penso que 'Aurora' irá pelo mesmo caminho, aqui nos Estados Unidos.

Ainda neste mês a Carmen [Miranda] começará a trabalhar em um novo film, chamado 'Honeymoon in Havana', ou seja, 'Lua de mel em Havana' e, pela segunda vez eu terei de bancar o Toscanini [Deus que me perdoe a blasfemia], afim de botar um freio na orquestra. Não quero dizer com isso que os americanos sejam maus músicos, pelo contrário, eles não deixam nada a desejar, porém, como você deve saber, tocar samba não é tocar fox-trot.

Joel, procure assistir a um 'short' musical da orquestra de Henry King, feito pela Universal, onde eu tenho um samba afro-brasileiro, com versos do Nestor [Amaral], cantado por uma brasileira, Dinorah Rego, acompanhada por Zezinho e Nestor. Como eu conheço a Africa somente por geografia e os homens queriam a todo pano uma musica afro-brasileira, eu fui obrigado a escrever uma melodia qualquer 'naturalizando-a' africana. Cá entre nós, estes golpes eu os aprendi na sua 'academia'.

'Como segundo número', procure ouvir, em discos, um fox-trot ainda sem nome, musica e arranjo de minha autoria, executado pelas orquestras de Benny Goodman e Harry James. Salve eu.

Não posso mais. Aqui está mais quente do que o campo do Fluminense em dias de sol e eu estou me 'dismilingüindo'. Portanto, tcháu!
Lembranças ao Gaucho e, a você, abraço do velho amigo Vadico.


Gaúcho & Joel.

Heleninha, Ismael, Jorge Goulart in 1951


a very intense young Jorge Goulart.

Revista 'Carioca' de 8 Fevereiro 1951

a revista Carioca tinha uma linha editorial meio simplista, fazendo reportagens de 2 ou 4 páginas, e 'enrolando' ao máximo, isso é, os articulistas pareciam odiar dar informações reais, portanto, andavam em círculos, fazendo citações meta-lingüísticas, isso é, falando sobre o próprio meio [jornalístico] dele, o que denota pobreza cultural ou preguiça mental.

Vejamos o texto dessa reportagem sobre a cantora Heleninha Costa, que sai em companhia de seu noivo Ismael Neto, dos cantores Jorge Goulart, Nuno Roland e Luiz Gonzaga para comprar fantasias para o Carnaval de 1951.

Jorge Goulart, Heleninha Costa, Ismael Neto, Nuno Roland e Luiz Gonzaga.

ESTAVA SOBRANDO ASSUNTO ...... por isso o reporter acompanhou o 'bloco' que ia comprar fantasia - Heleninha Costa escolheu um 'bikini' para Jorge Goulart; Nuno Roland afirma que não precisa de fantasia, mas, em compensação, Luiz Gonzaga resolveu vestir-se de 'amor-perfeito'... Uma autêntica confusão a presença dos artistas nas lojas. E quem quiser saber novidades que lêia esta reportagem.

Texto e fotos de Marco Aurélio de Lima

Tínhamos encontro marcado com Heleninha Costa. Queríamos uma entrevista com a simpatica artista, que chegou à hora aprasada em companhia de seu noivo, o jovem Ismael Neto, do conjunto Os Cariocas. Que ironia! Os Cariocas são na maioria paraenses. Mas deixemos de parte os apêndices. Vamos às novidades. Vamos sintetizar tudo porque o problema é o espaço vital em mistura com a preguiça do reporter que não quer escrever muito às vésperas de Carnaval: Heleninha vai se casar em junho [1951], possívelmente. A intriga começou com uma reportagem dêste reporter. Felizmente deu certo! Outra novidade. Uma grande novidade: Luiz Gonzaga deixou a Radio Nacional no dia 30 de janeiro [1951]. Vai viajar para Pôrto Alegre e, depois, irá à Europa divulgar o baião. Acreditamos no êxito do cabôclo! Ele saberá representar o Brasil. Mais novidades ainda: Jorge Goulart, o tal que afirma que o coração não engana e que quer uma sereia de Copacabana, não osbtante acharmos que as do Leblon são igualmente 'bem acabadas', deixou a Nacional e assinou um vantajoso contrato com a Radio Cultura de São Paulo, onde esteve vários dias. Foi à boite Bambú onde conheceu nosso amigo Cattan que lhe ofereceu o que de melhor havia na casa. Um grande sujeito o Cattan! Pois bem, querem mais novidades?

- Nuno Roland anda pela Nacional apesar dos boatos de que deixaria a emissora lider. Chegou do Rio Grande do Sul. Chegou de coreana e vai voltar, porque gostou do ar fresco dos pampas.

E ainda querem saber de mais alguma coisa?... Querem?

- Chega. Lá em baixo na rua, todo mundo, com ou sem máscara, brincando, enquanto damos duro aqui dentro...

Daqui a pouco voltaremos à rua para ver o que vocês estão fazendo para depois dizer aos outros aquilo que outros não viram. Mas acontece que precisamos encher três laudas. Resumimos tanto que acabou faltando assunto. Contemos portanto a história das fantasias e o comêço desta reportagem.

Comprometeramo-nos a publicar a letra de uma gravação de Heleninha. Que maravilha! Só a letra vai ocupar um espaço enorme. Querem ver?...

BONEQUINHA DE HOLANDA

Bonequinha que veio da Holanda...

[e são 13 linhas de letra de música]

O samba que estampamos acima foi escrito por P.Caetan o e C.Muniz.

Outra gravação carnavalesca de Heleninha que está sendo bem aceita pelo público é: 'Vida vazia', de autoria de Paulo Marques e Arlindo Borges:

[e são mais 11 linhas de letra de música]

Chegou?...

- Naturalmente. Vamos à história das fantasias. Pois bem, nós saimos da redação rumo ao comércio. Gonzaga, eternamento 'do contra', só fazia contrariar o bloco. Não concordava com coisa alguma, mas, quando as garôtas o cercavam, êle sorria. E como elas gostam dele! Ficamos até com inveja. O homem da sereia de Copacabana, que é filho de um grande reporter, por questão de afinidade, escolhia fantasias e ângulos. E depois que o homem do Mandarim nos mostrou todo o estoque, saímos com as mãos abanando, porque Luiz Gonzaga decidiu que iria passar o carnaval longe do reboliço da cidade; Heleninha está noiva e Goulart só precisará de uma tanga, já que sereia, em Copacabana, só de tanga.

Fim

Que texto mais absurdo. Seria uma boa peça a ser apresentada num curso de jornalismo para que os alunos saibam o que não fazer nunca. O articulista confessa sua preguiça e alegra-se com o fato de 'encher lingüiça' com a publicação de 2 letras-de-música que ocupam 25 linhas. Que grande sacana, que enganador! Que falta de ética, diria eu! Ele não está pensando no leitor, objeto de seu trabalho, mas em sua própria comodidade. É assim que se faz um país. Com atitudes como essa, onde a ética é objeto de escárnio e chacota.

Toda essas informações poderiam ter sido escritas em 3 parágrafos, e o articulista iria descansar e o leitor não perderia seu tempo lendo 'abobrinhas' e 'encheção-de-lingüiça'. Infelizmente o jornalismo no Brasil é assim até hoje. Deus nos acuda!

Luiz Amorim.

Ismael Neto acompanhado da noiva Heleninha Costa, Jorge Goulart & Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Jorge Goulart mostra seu lado elegante experimentando todo tipo de fantasia...