Thursday, 26 July 2012

Dora Lopes and her tribulations



Dora Lopes' 1964's extended-play 'Desamparada' (Helpless). The other titles are: 'Eu sem amanhã' (I without a future). 'Cafezinho' (Cappucino) and 'Enfarte musical' (Musical Heart Attack). As one can see Dora had a tendency to self-pity and the bombastic.


Dora Lopes was a fairly successful Brazilian singer who started in the 1940s, and had a few hits in the 1950s. In the 1960s it was notorious or at least for those 'in the know' that Dora was a lesbian. Dora liked the night life and started a string of night clubs in São Paulo that catered for the lesbian community even though they were not openly 'gay'.

Every now and then Dora thought she had to work on her 'heterosexual image' and made arrangements with Revista do Radio's staff to be photographed with a young man that would pose as her next 'husband-to-be'.

This is a particular funny article. It is plain to see Dora Lopes does not even bother to try and make it ring true. She's having a lot of fun with her antics and so is her 'beard' who can hardly disguise his own gayness.
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High camp in the making... Dora Lopes & Wilson, her 'beard'...
'Love has arrived for Dora Lopes' says Revista do Radio 14 November 1964.

O AMOR CHEGOU PARA DORA LOPES

Carioca e tendo passado a maior parte de sua vida profissional no Rio, Dora Lopes acabou sumindo da Guanabara, transferindo-se para o atual Eldorado artístico que é São Paulo, com suas 5 emissoras de TV e centenas de boites e bares com música. Assim, lá encontramos Dora na boite 'Dim Dim' da rua Augusta, onde nos recebeu com carinho.

'Não abandonei o Rio, mas desde 1962 venho trabalhando permanentemente aqui em S. Paulo. Tenho um apartamento grande na praia do Botafogo e um sítio em Ambaí, no Km. 17 da estrada Rio-S.Paulo e uma casa de campo na Vila Boa Esperança'.

'Em parceria com Higino Carlos, antigo dono da boite 'Sambalanço', comprei o 'Dim Dim' na rua Augusta mudando o nome para 'Dim Dora Lopes Dim'. Inauguramos no dia 1o. de setembro de 1964, tendo Egas Muniz como padrinho da casa. Tenho um ótimo guitarrista em Zairo Marinoso e um excelente cantor, Adalton Santos, descoberta minha. Eu mesma me apresento várias vêzes durante a noite'.

Dora gravou duas marchas para o Carnaval de 1965'Dúvida cruel', de sua autoria e 'Cheque visado', de sua secretária Edna. A Copacabana também acaba de lançar 'Desamparada', um extended-play.

Durante nossa entrevista chega um jovem simpático chamado Wilson que a beija carinhosamente. Dora diz que se trata apenas de um amigo querido, mas conseguimos apurar que Wilson é, na realidade, seu noivo e que os dois provavelmente casarão depois do Carnaval.

Wilson trabalha na Fundação Caper Líbero e fez recentemente um curso de TV nos EEUU; é primo de Antoninho Vitale. Ele conheceu Dora Lopes no 'Clube de Paris' e ficaram noivos há poucas semanas.

1962's 'Samba da madrugada' was Dora Lopes' greatest hit. 
Dora Lopes with Dolores Duran dressed to kill sometime in the 1950s in some posh Rio night-club.
Dora Lopes de biquini nas areias de Copacabana...
around the late 1950s and early 1960s Dora decided not to bleach her hair for a while.

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Dora Lopes also had her eyes slanted Asian-like...

Dora Lopes conseguiu o que queria: um nariz novo!

A verdade é que Dora Lopes não gostava muito do nariz antigo. E como a ciência inventou a operação-plástica para fazer as pessoas mais felizes, a sambista resolveu se submeter aos cuidados do cirurgião Pedro Valente - seu particular amigo - para corrigir o que entendia desagradável em seu aspecto. Dessa maneira, internou-se na Casa de Saúde São Victor e sem mêdo, levando apenas anestesia local, assistiu a todo o trabalho do médico. O nariz foi amoldado ao gôsto da artista, que aproveitou a oportunidade para amendoar, também os olhos.

No terceiro dia depois da operação-plástica a artista pôde seguir para casa, embora ficasse com o nariz engessado por uma semana. E quando lhe tiraram a massa, sem perda de tempo, Dora Lopes foi cantar num show em São Paulo. Isso inflamou um pouco o seu nariz, mas felizmente, não aconteceram complicações.  A cantora considerou a operação esplêndida e, mesmo proibida de rir, nos primeiros dias, não resistiu às graças que fizeram Esther Tarcitano, Wilza Carla e Eloína com o objetivo de arrancar-lhe gargalhadas. Tudo ficou bem e Dora Lopes confessa que atualmente é feliz, podendo ver-se a todo momento, no espelho, como se fôsse outra. O nariz e os olhos ficaram ao seu gôsto.

E para mostrar que está em plena forma, posou para a Revista do Radio, à maneira imaginada pela Aymoré Marella. Os resultados de decisão da estrêla - gastou apenas 150.000 cruzeiros! - estão mais do que à vista. Ela agora confessa que não tem mêdo de enfrentar as câmeras. O seu nariz, que antes atrapalhava agora até ajuda o seu sucesso.

Revista do Radio - 9 Novembro 1963. 

Dora Lopes had a nose job done but decided to show the whole body as well...

Dora circa 1964.
a lot of hair spray in that coiffure...


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UM MILAGRE ME SALVOU!

Dora Lopes quase perdeu a vida, num desastre de automóvel, há algumas semanas: escapou, realmente, por milagre, conforme o relato que faz aqui nas páginas da Revista do Radio. As duas fotos mostram a cantora antes do acidente e como se encontra, em sua residência na capital paulista.

Revista do Radio de  19 Junho 1965.

O desastre aconteceu quando a cantora estreava seu Karman-Ghia

O desastre ocorrido com Dora Lopes, na Estrada Rio-São Paulo, em abril de 1965, foi amplamente divulgado pela RR. Entretanto, devido ao estado da cantora, havia sido proibido pelos médicos, qualquer contato com a Imprensa. Sòmente agora foi possivel ouví-la e fotografá-la. E aqui está, nas próprias palavras da cantora, o relato frio daquele acidente, em que quase perdeu a vida:

- "Fui a São Paulo visando fazer duas coisas: tomar contato com os negócios da minha boate e trocar de automóvel. Vendi o meu Volkswagem e comprei um Karman-Ghia, zero kilometro. No dia em que recebi, da agência, êsse carro, voltei para o Rio, trazendo a minha colega Marisa Açode Bravo. Eu estava na direção do veículo.

- Como conta o desastre?

- As fortes pancadas recebidas no crâneo, deixaram-me, como ainda hoje estou, com forte amnésia. Lembro-me que um pouco antes da localidade de Piraí-RJ senti-me cansada e com sono. Disse à Marisa que estava com vontade de parar e dormir um pouco, ao lado da estrada. Ela alegou que já estávamos perto do Rio. O melhor seria chegar mais cedo e mostrar o 'carrão' aos nossos familiares e amigos. Concordei com ela e continuei. Foi quando, em dado momento, senti que o carro desgovernado ia em direção a um precipício. Gritei para Marisa saltar. Ela relutou. O carro, nessa altura, incontrolável, saiu da estrada. Abri a porta que estava ao lado dela e a empurrei para fora. A fôrça que fiz para isso foi tamanha que fraturei o braço.

- Qual acredita ter sido a causa do acidente?

- Não sei mesmo qual a certa. A perícia achou que entrei na curva desenvolvendo 140 km por hora, o que julgo impossível. Uns acreditam que dormi um pouco ao volante, enquanto outros chegam a afirmar que um carro, vindo na direção oposta, obrigou-me a um golpe de direção e usar os freios. Não sei mesmo como aconteceu o acidente. O certo é que aquêle foi o de número 796, naquele mesmo local...

- Quando Marisa saiu do carro, o que aconteceu?

- O Karman-Ghia despencou no abismo, capotando 5 ou 6 vêzes, e finalmente, ficando parado a uns 40 metros da estrada. Nessas capotagens, as ferragens retorcidas arrancaram-me o couro cabeludo, tendo eu por um milagre, escapado com vida. E já numa das últimas capotagens - ninguém pode saber qual foi, fui atirada inerte sôbre umas pedras.

- Quem lhe prestou socorro?

- O proprietário de uma Kombi, que ia do Rio para São Paulo. Conta-se que êle, de longe viu quando o carro vinha desgovernado. Parou a Kombi e ficou olhando o meu carro capotar. Viu quando Marisa saiu pela porta. E então, indo socorrê-la, perguntou: 'Minha filha, ainda ficou alguém no carro?' Marisa, que pouco sofreu, disse-lhe: 'Lá em baixo, está Dora Lopes, morrendo'.

O homem, então, que foi de uma humanidade exemplar, desceu o abismo com muito sacrifício e encontrou-me cheia de fraturas, tôda ensangüentada, com o couro cabeludo a um lado. Era um quadro terrível. E êle, então, colocou o couro cabeludo em minha cabeça, amarrando-a tôda com a sua camisa. Colocou-me nas suas costas, subiu o abismo - só Deus sabe como! - e levou-me para o hospital, não sei qual nome.

- Como os médicos de Piraí receberam-lhe?

- Não sei como poderei pagar o que êles fizeram por mim! Eu estava com fratura numa costela, no maxilar, no nariz, no frontal e cortes enormes pelo couro cabeludo e a mão esquerda, também fraturada. Para que se tenha uma idéia dos cortes recebidos na cabeça, basta dizer que recebi 51 pontos no couro cabeludo e 28 pontos da testa até o ôlho esquerdo. Por um milagre não fiquei cega.

Depois de socorrida, com o maior cuidado, em Piraí, Dora Lopes foi removida para a Casa de Saúde São Clemente, no Rio. O tratamento continuou, E, muito antes do que se esperava, foi considerada fora-de-perigo. Porém, ainda hoje Dora Lopes sente dôres terríveis, que só lhe permitem dormir à custa de sedativos. Está esperando a completa recuperação, para, então, submeter-se a várias operações plásticas que, certamente, irão restituir-lhe a beleza.

E quanto à cantora Marisa Açode Bravo, vale acrescentar, que ela, fisicamente está bem. Sofre, entretanto de uma depressão nervosa provocada pelo acidente, cuja cura, asseguram os médicos, se dará quando Dora Lopes estiver plenamente recuperada.

O couro cabeludo de Dora Lopes foi quase inteiramente arrancado do crâneo. Dora recebeu 28 pontos da testa até o ôlho esquerdo, que por pouco escapou de ser vazado. 
Parentes e amigas estão sempre ao lado da cantora, fortalecendo-lhe o ânimo. Dora Lopes espera retornar à vida artística depois das operações-plásticas a que se submete, dentro de pouco tempo. 
Dora Lopes deitada na cama de sua casa em São Paulo. Posa com o casaco da amiga e ainda tenta pentear o que restou de seus cabelos. Nota do blog: desculpe a rasura das duas fotos pequenas, mas revistas compradas em sêbos, veem, muitas vêzes assim. 

Dora sues the Brazilian Song-writers Union for embezzling funds that belonged to her. Intervalo April 1971. 

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Dora Lopes ao lado de Pery Ribeiro no velório de Dalva de Oliveria em 31 Agosto 1972. 

Ao lado do caixão de Dalva, Dora Lopes, uma velha amiga da família, lembrava sempre que 'Dalva todo o tempo que esteve hospitalizada, nunca falou em morrer. Tinha esperança que venceria a doença que a consumia. Só uma vez referiu-se à possibilidade de morte, quando me pediu que, se morresse, gostaria que seu funeral saísse do salão da sua casa, em Jacarepaguá'. 

Ponto de encontro 

A Velha Guarda agora está se reunindo em outro lugar
foi a chamado de Jesus por isso agora
está se reunindo em outro lugar

O sempre vivo Noel, foi encarregado das composições
o mestre Pixinguinha no acompanhamento
muito carinhoso procurando os tons

O velho Cyro na caixa chega de repente já na marcação
misturando samba canta um novo tema
dizendo que o Flamengo foi bi-campeão

A Velha Guarda agora está se reunindo em outro lugar.
foi a chamado de Jesus por isso agora
está se reunindo em outro lugar

O grande Ary no piano fazendo seus acordes muito inteligentes
mas, eis que de-repente pensa estar sozinho
cantando, passa em coro, chega o Agostinho

Vem um coral feminino trazendo alegria que não tem mais fim
com Dalva e Dolores entoando um hino
com a supervisão de Jacó do Bandolim

A Velha Guarda esta se reunindo em outro lugar
foi a chamado de Jesus por isso agora
está se reunindo em outro lugar.


samba de Dora Lopes e Clayton Werre
gravação de Célia - 1973


Dora Lopes being herself in the 1970s. 



News about Dora Lopes' death and burial on Folha de S.Paulo, 26 December 1983. 

Poucos amigos da cantora e compositora Dora Lopes compareceram ontem, 25 Dezembro 1983, pela manhã, ao Cemitério Gethsemani, no Morumbi, em São Paulo, para prestar a ultima homenagem à autora de 'Velório de sambista', falecida no sábado, 24 Dezembro 1983, aos 62 anos. A cerimônia foi simples e rápida e dela participaram cerca de 40 pessoas, familiares, amigos íntimos da cantora como Edith Veiga, Agnaldo Timóteo, Adilson Godoy, Salete Borba Lopes, proprietários de casas noturnas - Marizinha, uma das donas da boite Bug House, na Rua Augusta, último local onde Dora Lopes se apresentara, e David Daniel da boite gay Nostro Mondo, da rua da Consolação. 

Há várias semanas Dora vinha se queixando de dores agudas - ela sofria de uma grave doença no pâncreas - mas mesmo assim vinha cumprindo a temporada na boite Bug House relembrando seus antigos sucessos como 'Samba da madrugada', 'Noite ilustrada' e 'Toalha de mesa', por insistência de sua velha amiga Marizinha, ao lado de quem sofrera ha 18 anos (1965), um grave acidente automobilístico na Via Dutra, quando seu Volkswagen capotou no km 79, enquanto se dirigiam ao Rio de Janeiro em viagem noturna. Até que há 15 dias, sentiu-se mal numa de suas apresentações, sendo substituída pela amiga de muitos anos, a cantora Edith Veiga - que em 1962 gravara 'Velório de um sambista', de Dora. Depois de cantar baixinho esse samba, no velório de Dora, Edith concedeu entrevista, lamentando a presença de outros cantores e compositores no enterro. 

Agnaldo Timóteo, que veio especialmente à São Paulo, também não se conformava com o reduzido número de representantes da categoria e lembrou a importância de Dora como cantora e compositora, de quem gravou há 8 anos, 'Amor proibido' com grande sucesso. Salete Borba Lopes, irmã de Emilinha Borba e casada com um dos irmãos de Dora, afirmava que 'Dora merecia todas as homenagens por ter sido uma amiga fiel de todos os cantores que gravaram músicas suas'. 

Segundo Edith Veiga, as previsões de um pai-de-santo pernambucano - que havia 'profetizado' o dia da morte de Dora Lopes - infelizmente se confirmaram. E lamentou que muitos dos amigos tenham preferido ignorar a terrível situação financeira da artista que passava por momentos difíceis em seus últimos dias, a ponto de depender de hospitais públicos - antes de ser transferida ao Hospital Paulistânia, onde morreu, ela fora atendida precariamente (de acordo com amigos) na Santa Casa de Misericórdia. 

'Tudo isso é muito triste', desabafou o músico Adilson Godoy, presidente da Sicam, que proferiu um discurso à beira do túmulo 93 do Cemitério Gethsemani. 'Principalmente levando-se em conta o altruísmo de
Dora, que chegou a ser vice-presidente da Caixa de Assistência dos Compositores e era uma pessoa extremamente preocupada com a situação da categoria.

Também compareceram ao enterro o compositor Geraldo Nunes, que gravou 'A velha debaixo da cama', 'O bem amado' e outras. No próximo dia 3 de Janeiro 1984, será celebrada missa de 7o. dia na Igreja de N.S. do Rosário no Largo do Paissandu. 

2 comments:

  1. Amostrei o texto para meu avo ruy borba lopes e minha bisa avó salete borba lopes e os dois gostaram muito da historia... Meu avô principamete pois amava sua tia dora lopes

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  2. Fico feliz de saber que meu texto, que na verdade, é apenas transcrição de textos publicados na Revista do Radio e outros periódicos, tenha agradado tão seleta platéia, seu avô Ruy Borba Lopes e sua bisavó Salete Borba Lopes... obrigado, Davi Oliveira, por ter deixado a nota.

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