Thursday, 4 April 2013

LINDA RODRIGUES

Linda Rodrigues was a pop singer who became quite prominent  in the 1940s and 1950s. Torch-songs were her specialty. She actually specialized in songs about drunkenness and the dark side of human relationships. If one goes through her discography one is bound to realize she had a drinking problem and the biggest chip on her shoulder. 

In 'Quando a gente fica velho' (When one gets older) Linda pokes fun at the onset of dementia in old age

Linda's greatest hit was 'Lama' (Squalor) in 1952, in which she prides herself of the times she wallowed in squalor with someone who is now bad-mouthing her. 

'Bambeio mas não caio' (I stumble but I do not fall) is a tongue-in-cheek account of how much liquour she could drink without actually falling over. 

Of 'Mesa de bar' which translates as 'At a bar' one can only think of spirits, beer and intoxication.

Her next single in 1953, was the Brazilian translation of George Gershwin's 'The man I love'. Her 'ideal' man is actually a SOB who only fucks her a few times and flees once she is not 'fresh' anymore. I don't think Ira Gershwin would have been too happy (or proud) of what they've done to his song, ma! The flip-side is 'Flower of squalor' (Flor da lama) which doesn't augur any brighter prospects of human advancement either.  

In 1954, she records 'Farrapo de calçada' which would translate freely as 'Down-and-out sleeping in the gutter'. Next year, Linda introduced 'Addiction' (Vicio) which needs no further enlightening. 

1956's 'Farrapo humano' (A scrap of a man) would be a winning lecture at any AA meeting. 

From then on, Linda took a less harsh approach to her singles until she released her last record in 1961. It was her one and only album (LP), intitled 'Campanheiras da noite' (Night's companions or Creatures of the night). Linda gives a certain lesbian edge to 'Escondida' (Hidden)... our parents don't want our union, condemn our romance and say it is temptation.

Linda Rodrigues was known in her time (only for those in-the-know) for being a lesbian. She was in the same league as Dora Lopes, who was actually more influent in lesbian affairs due to her business interests in night-clubs in Rio and later São Paulo. 

Linda Rodrigues was born Sophia Gervasoni in 11 August 1919, in Rio de Janeiro-DF. Bernardo Gervasoni was her father and Anna Maria Rodrigues her beloved mother. 

Sophia Gervasoni died in 16 November 1995, in Rio. She was 76 years old and died of heart and lung problems. 


O homem  que eu amo                                         The man I love   

O homem que eu amo fugiu de mim                          The man I love has flown from me
o homem dos meus sonhos me abandonou               the man of my dreams abandoned me
meu lar ficou vazio, meu coração chorou                   my home is empty, my heart is crying

passou a sensação da novidade                               suddenly I wasn't the 'next-big-thing' anymore
o mundo esqueceu a minha dor                                the world has forgotten my pain 
somente eu fiquei chorando a volta do meu amor       I kept on crying until he returns to me

eu ainda espero um dia                                           I still wait for the day
abraça-lo outra vez                                                  I will hold him again
e somente essa alegria                                           and only then 
apagará o grande mal que ele me fez                        this bad feeling will go away 

porque depois então, relembrarei                              Then I will remember
os nossos bons momentos, lua de mel                     our good times, our honey-moon
o homem que eu amo                                              the man I love 
fugiu de mim e vive ao léo.                                        has gone from me and live aimlessly.

This is how a great masterpiece from the Gershwin brothers was butchered by the Brazilian 'translator'. Linda does her best but cannot save it from total disaster.

 Linda Rodrigues, Rio 20 May 1943. 
beautiful Linda Rodrigues when she worked as a nurse between 1936 and 1938.


Embora sendo jovem, Linda Rodrigues aparece como uma cantora da 'velha guarda'. Veio daqueles tempos da Radio Transmissora dirigida por Renato Murce. E durante tantos anos de radio, marcou seguidos sucessos como cantora: 'Lama', 'Nossos caminhos' ou 'Mesa de bar' entre outros. Todavia aconteceu que Linda Rodrigues resolveu, de uma hora para outra, abandonar o microfone. Ela explicou a razão: 

- Estava esgotada. Nervosa demais. Tinha de passar uns tempos longe de tudo que se refere à vida artística.

- Voltou porque se julgou recuperada?

- Mesmo recuperada fisicamente, eu não nutria desejos de voltar como cantora. Preferi me tornar compositora. Tive sorte. Muitas das minhas musicas foram gravadas pelos mais conhecidos cantores. Agora mesmo chegou a vez de Nelson Gonçalves gravar uma de minhas composições. 

- A que devemos o seu retorno ao radio como cantora?

- O radio é uma cachaça. Se eu não voltasse morreria de paixão.

- Contente no retôrno?

- Tôda alegria traz as suas lágrimas. Deram-me um disco onde estava gravado 'Negue' de Adelino Moreira. Gostei da musica e pedi ao Adelino para gravá-la também. Ele, dizendo que o cantor paulista era péssimo, consentiu que eu fizesse um acordo com a Chantecler. Aconteceu que antes do meu disco ser colocado à venda, apareceu um outro, gravado por Carlos Augusto.

- Zangada com Adelino Moreira?

- Ele agiu com a desonestidade que lhe é peculiar. Não poderia ter dado a música à Carlos Augusto, quando havia se comprometido comigo. Sobre Adelino prefiro omitir o adjetivo que ele merece.

- E Carlos Augusto?

- Outro também sem moral. Era preciso que ele soubesse, que para um bom cantor, é necessário também haver coleguismo.
    
Linda Rodrigues estava revoltada com Adelino Moreira e Carlos Augusto. Disse outras coisas bem 'fortes'. Nós, entretanto, fomos a outro assunto. 

- Planos novos para este ano?

- Vou continuar compondo músicas em parceria com Aldacyr Louro. E também aparecendo como cantora. Quero voltar a fazer excursões. Tenho saudades dos tempos em que percorria todo esse Brasil. 




reportagem da Revista do Radio de 25 Março 1961, onde Linda Rodrigues esculhamba com o compositor Adelino Moreira e o cantor Carlos Augusto. 


Bambeio mas não caio

Enquanto houver bebida daqui não saio
eu bebo, bambeio, mas não caio!

Muita gente quer me ver fracassar
bambear p’ra fazer feio
eu bebo, eu jogo, eu fumo
não há defeito que eu não tenha
quem for perfeito,
p’ro meu cordão não venha.

marcha do Carnaval de 1953 - Paulo Marques-Aylce Chaves-Elvira Pagã.


Revista do Radio, 30 Novembro 1963.

Carioca nascida na Tijuca, Linda Rodrigues, atendendo um pedido de sua mãe, acabou formando-se enfermeira pela Escola Ana Nery (embora nunca tenha exercido a profissão). Começou a estudar medicina em Belém do Pará, onde morou 2 anos com a irmã e o cunhado, que era comandante da Marinha de Guerra. Pouco depois sua mãe falecia, e como estávamos na época da Guerra, Linda Rodrigues resolveu aproveitar os conhecimentos de medicina que já conhecia. 

Atualmente tem 4 irmãs, pois uma já faleceu, e um irmão, que é oficial da Marinha. Sua formação moral foi das mais rígidas, pois fez o curso primário e o ginasial na Escola Maria Raythe, um colégio de freiras na Tijuca, sendo seu padrinho de crisma o Cardeal Dom Sebastião Leme, que gostava muito dela. Terminou sua educação em Belém, onde foi em 1936

Sua 1a. experiência artística aconteceu 1 ano antes (1935), no Rio, quando cantou na Radio Transmissora sob a orientação de Renato Murce, atuando ao lado de Odette Amaral, Cyro Monteiro, Orlando Silva e Emilinha, que era igualmente amadora como Linda. 

Na capital paraense, foi um dia acompanhar uma moça conhecida sua, que ia tentar a sorte no Radio. A moça não foi aproveitada por não ter voz afinada e Linda Rodrigues, que imitava Carmen Miranda de brincadeira, foi contratada. Ofereceram-lhe 100 cruzeiros por mês. Ela aceitou e logo pediu um adiantamento para comprar vestidos para o programa. Trabalhou na Radio Clube do Pará durante 2 anos e quando voltou ao Rio, já como estudante de enfermagem, foi atuar na Radio Cruzeiro do Sul, ganhando cachês de 15 cruzeiros por vez. 

Em 1939, já com algum cartaz, fêz sua 1a. viagem artística, indo atuar na Feira de Amostras, em Recife. Na volta, foi aconselhada por Lupe Ferreira, que com ela viajava de navio, a ficar alguns dias na Bahia. Assinou um contrato por 15 dias e ficou 2 meses. Quando voltou, foi contratada pela Radio Nacional com o salário mensal de 1.500 cruzeiros. 

Em 1940, foi para São Paulo atuar na Radio Tupi e em shows. Quando voltou ao Rio foi contratada para cantar nos Cassinos da Urca e Icaraí e na Radio Nacional. 

Em 1943, trocou a Nacional pela Tupi e a Urca pelo Cassino Atlântico. Depois, nova volta ao Icaraí, onde ficou até o fechamento dos cassinos. 

Começou a gravar em 1943, na Continental, onde lançou 'Você não sabe amar'. 

Em 1945, foi contratada pela Radio Mayrink Veiga, onde ficou até 1957, com uma interrupção durante o período em que esteve bem doente.   

Em 1962, voltou à PRA-5, onde permaneceu 1 ano. Em 1963, assinou com a Radio Mauá.

Gravou na Continental durante muitos anos; depois foi para a RCA Victor, contratada por Fafá Lemos. Quando mudou a direção ela foi dispensada. Recorreu à Justiça e ganhou a questão. Daí foi para a Chantecler onde gravou 'Negue' e 'Tenho moral'.  Depois desgostou-se com certas coisas do ambiente e resolveu parar de gravar. Agora ela prefere ser apenas autora, e de parceria com Aldacyr Louro, tem produzido varias melodias de sucesso como 'A vedete do ano', 'Mexericos da Candinha', 'Lambusando o sêlo' , 'Juízo de criança', 'Dilema', 'Penso em teus olhos', 'Aquelas mãos'. Já gravou com Cauby Peixoto, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira. Para o carnaval deste ano gravou com Mario Alves a marcha 'Mamãe, eu quero colo'. 

Em suas muitas excursões pelo Brasil, ganhou muito dinheiro, que soube empregar bem. Comprou uma casa em Petrópolis, que vendeu depois para comprar o apartamento em que reside, no Posto 3 de Copacabana. Também comprou um sítio em Nilópolis, que vendeu em lotes. Agora está tratando da herança de sua mãe, que deixou casas no valor de 7 milhões. Começou a escrever um livro baseado numa história verídica, que pretende transformar numa novela de radio. Os direitos serão doados à Cruzada Espiritual Boa Ventura, para a construção da Casa da Criança Pobre de Francisco de Assis. Linda Rodrigues e suas amigas fazem roupas para as crianças pobres da Cruzada, que também distribui mantimentos aos pobres, todos os mêses, no dia 13.

De sociedade com uma amiga, que já foi cantora, Waly Cunha, tem um atelier de costura no Posto 6. Desfrutando de uma boa situação financeira, que lhe permite viver sem trabalhar, Linda Rodrigues voltou ao Radio apenas para com seu trabalho ajudar os pobres. 


Waly Cunha no tempo que foi cantora e colega de Linda Rodrigues nas Radios Tupi e Tamoyo.

Linda Rodrigues discography 


January 1945 - Continental 
A. Enxugue as lágrimas (Elpídio Viana-Carneiro da Silva)
B. Abaixo do nível (Alavaide-Odaurico Motta)

March 1945 - Continental 
A. Você não sabe amar (João Bastos Filho-Antonio Amaral)
B. E Odete não voltou (Paquito-Jose Marcilio)

September 1945 - Continental 
A. Arma perigosa (Paquito-Paulo da Portela)
B. Cantora de samba (Amado Regis) 

December 1945 - Continental 
A. Sublime perdão (Amado Regis)
B. Quando a gente fica velho (Linda Rodrigues-Aylce Chaves-Amado Regis)

January 1946 - Continental 
A. Atchim (Principe Pretinho-J.Piedade)
B. Claudionro (Candido Mota-Miguel Bauso Guarnieri)

March 1946 - Continental 
A. Não adianta chorar (Felisberto Martins-Ary Monteiro) com Linda Rodrigues
B. Ai Luzia (Jararaca-Guaraná) - com Emilinha Borba  

June 1946 - Continental 
A. Banco de jardim (Dorival Aires-Jaime de Souza-Paquito)
B. Banco de praça (Paquito-Cyro de Souza-João Bastos Filho)

September 1948 - Continental - 15.926
A. Jack Jack Jack (Armando Castro-Haroldo Barbosa)
B. Mais um amor, mais uma desilusão (Jose Maria de Abreu)

January 1951 - Carnaval 
A. Vou partir (Paulo Gesta-Aylce Chaves)
B. Batuqueiro novo (Jose Alcides-Tancredo Silva-Raul Marques)

September 1951 - Star - 243
A. Os dias que lhe dei (Ayrton Amorim-Newton Teixeira)
B. Raça negra (Paulo-Gesta-Aylce Chaves)

December 1951 - Star 
A. Recruta 23 (Aloysio Silva Araujo-Zé Trindade)
B. De mão em mão (Jaú-Lecinho)

June 1952 - Continental - 16.559
A. Lama (Paulo Marquez-Aylce Chaves)
B. Nossos caminhos (Nogueira Xavier-Ayrton Amorim)

January 1953 - Sinter 
A. Sombra e água fresca (Geraldo Mendonça-Russo do Pandeiro)
B. Bambeio mas não caio (Paulo Marques-Aylce Chaves-Elvira Pagã)

June 1953 - Continental - 16.742
A. Fui amigo (Paulo Marques-Savio Barcellos)
B. Mesa de bar (Dora Lopes-Paulo Marques)

October 1952 - Continental - 16.822
A. O homem que eu amo (The man I love) (Ira Gershwin-George Gershwin; v.: Mayu - Atty)
B. Flor do lodo (Ary Mesquita)

January 1954 - Continental 
A. Sereno cai (Ricardo Galeno-Raul Sampaio) - carnaval 
B. Tá tão bom (Os Três Amigos)

April 1954 - Continental 
A. Fique em casa (Raimundo Olavo-Bené Alexandre)
B. Farrapo de calçada (Linda Rodrigues)

January 1955 - Continental - 17.058
A. Ninguém me compreende (Peterpan)
B. Vício (Linda Rodrigues-Jose Braga) 

October 1955 - Continental
A. Olha no espelho (Jose Gonçalves-Zilda Gonçalves aka Zé & Zilda)
B. Aquilo que eu vejo (Chianca de Garcia-Vicente Paiva)

November 1955 - Todamerica 
A. Rico é gente bem (Ary Monteiro-J.Rupp-A.Rebelo)
B. Folha de papel (Paulo Marques-Savio Barcellos-Ary Monteiro)

May 1956 - Continental
A. Farrapo humano (Linda Rodrigues-Aylce Chaves)
B. Queimei teu retrato (Noel Rosa-Henrique Brito)

November 1956 - RCA Victor
A. A dona da casa (Dina-Arnô Canegal)
B. Barca da Cantareira (Arnaldo Ferreira-J.Rupp)

January 1957 - RCA Victor 
A. Pianista (Irany de Oliveira-Ary Monteiro)
B. Comentário barato (J.Santos-Jaime Florence 'Meira')

January 1958 - RCA Victor 
A. Chorar p'ra que? (Aldacyr Louro-Silva Jr.)
B. Quando o sol raiar (Sebastião Mota-Urgel de Castro-Mirabeau)

April 1958 - RCA Victor 
A. Sereno no samba (Dora Lopes-Aldacyr Louro)
B. Nada me falta (Linda Rodrigues-Aldacyr Louro)

January 1959 - RCA Victor
A. Tem areia (Linda Rodrigues-Jose Baptista) - carnaval 
B. Marcha da folia (Linda Rodrigues-Aldacyr Louro-Silva Jr.)

April 1959 - RCA Victor 
A. Meu romance (Linda Rodrigues-Aldacyr Louro)
B. Mesa discreta (Elias Cortes)

August 1960 - Chantecler 
A. Negue (Adelino Moreira-Enzo de Almeida Passos)
B. Tenho moral (Linda Rodrigues-Castelo)

November 1960 - Chantecler 
A. Companheiras da noite (Linda Rodrigues-Aylce Chaves-William Duba)
B. Lama (Paulo Marques-Aylce Chaves) 








Reportagem da revista ‘Cena Muda’ de 16 Maio 1944.

Conhecemos Linda Rodrigues na Radio Tamoio. Ela tinha acabado de cantar. O assunto da palestra não podia ser outro senão o samba, que é o seu gênero predileto.

Graças a Deus eu estou com um bonito repertório, todo exclusivo, todo criado por mim e que esta agradando bastante. Tenho dois sambas de Marcílio Vieira, ‘Moreno de trato’ e ‘Proverbio’. Outro numero que frequentemente sou solicitada é ‘Sombra’, de J. Graça. Também ‘Para que fingir?’, de Cícero Nunes, vem alcançando grande êxito, o que revela as referências que encontro sempre nas cartas recebidas de meus fãs.

Perguntamos à Linda Rodrigues como lhe veio o desejo de entrar para o Radio.

Desde garota, nos bancos ginasiais, era doidinha pelo canto, mas nada de ‘classico’. Gostava muito de canções, porém a minha maior felicidade era cantar sambas. A musica popular dos nossos morros exerceu sempre uma grande influência no meu temperamento. Nas festas escolares eu não perdia vasa: era sempre programada para interpretar o samba que estivesse em voga na ocasião. Quando fiquei mocinha, depois de um trabalhoso curso de enfermagem, pretendia ser enfermeira num dos nossos estabelecimentos hospitalares. Hoje podia estar de avental branco, lidando com gazes, iodo e água oxigenada.

Mas certo dia, tive que transferir a minha residência para o Pará, para onde foi minha família. Como não tinha nada que fazer, resolvi, por mera brincadeira, cantar ao microfone da Radio PFC-5 de Belém. Aquieceram os diretores dessa emissora ao meu capricho e acabei ficando por lá muito tempo. Estimulada pelo agrado e o acolhimento resolvi voltar ao Rio para tentar carreira no Radio carioca. Aqui também fui felicíssima, cantando em quase todas emissoras: Radio Cruzeiro, Transmissora, Nacional, Tupi e, agora estou na PRB-7, Radio Tamoio.
Revista da Semana de 1937. 
Linda Rodrigues em foto do arquivo do 'Jornal das Moças'.
Linda Rodrigues na capa da Revista do Rádio - 11 Setembro 1951.
Se eu quiser beber, eu bebo; se quiser fumar, eu fumo... Linda Rodriguess dressed to kill... on a drinking binge.
LP 'Companheiras da Noite' gravado pela Chantecler em 1960. 

Companheiras da noite 

Companheiras da noite
que já sofreram o que eu estou sofrendo
e já viveram o mesmo drama que eu estou vivendo
a vocês condenei, sem pensar que caía na mesma infração 
de mim tudo se afasta como o vento que arrasta as folhas no chão 

Companheiras da noite
de olhos magoados e faces cansadas
espelhos fiéis de tantas vidas também derrotadas
pelo mal que eu fiz, eu peço perdão e digo tudo por fim
a minh'alma implora, não partam agora, esperem por mim 

Linda Rodrigues, Aylce Chaves & William Duba, 1960s. 

LP 'Companheiras da noite' - Chantecler CHE-066

1. Lama (Aylce Chaves-Paulo Marquez)
2. Negue (Adelino Moreira-Enzo de Almeida Passos)
3. Tião (Jair Amorim-Dunga)
4. Pedro no caminho (Aldacyr Louro-Linda Rodrigues) 
5. Documento (Aldacyr Louro-Linda Rodrigues) 
6. Final de nosso drama (Aldacyr Louro-Linda Rodrigues)

1. Aquelas mãos (Aldacyr Louro-Linda Rodrigues)
2. Pó do asfalto (Aldacyr Louro-J.Portela)
3. Cigarra noturna (Aldacyr Louro-Linda Rodrigues)
4. Companheiras da noite (Aylce Chaves-Linda Rodrigues)
5. Tenho moral (Linda Rodrigues-Castelo)
6. Escondida (Luiz Alcarez; versão: Martha de Almeida)





Lama

Se quiser fumar eu fumo
se quiser beber eu bebo
não me interessa mais ninguem.

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Comendo da minha comida
bebendo a mesma bebida
respirando o mesmo ar.

E hoje, por ciúme ou por despeito,
acha-se com o direito de querer me humilhar.

Quem foste tu? Quem és tu? Não és nada!
Se na vida fui errada, tu foste errado também.

Não compreendeste o sacrifício, sorriste do meu suplicio 
me trocando por alguém.

Se eu errei, se pequei, não importa!
Se aos teus olhos estou morta
p'ra mim morreste também. 

de Aylce Chaves & Paulo Marques - 1952.


Note que o compositor de 'Lama', Paulo Marques, cujo nome verdadeiro era Paulo Barcelo de Oliveira, não é o compositor de sambas Paulo Marquez ('Diz que fui por aí' entre outros), cujo nome verdadeiro era José Marquez.



'Lama' foi regravada por Maria Bethania em 1968, sendo o carro-chefe de seu LP 'Uma noite na boite Barroco' da Odeon. Note que Bethania suprimiu a parte em itálico: 'Não compreendeste o sacrifício, sorriste do meu suplício, me trocando por alguém'.


Farrapo humano

O que sinto na bebida 
eu mesma não sei dizer
se são os fracassos da vida
que me fazem assim proceder

em cada trago que eu bebo
vejo negro o meu futuro 
mais negro do que o presente
infelizmente, eu asseguro 

na bebida não consigo afogar o pranto
eu tenho sofrido tanto 
que já nem sei mais chorar

Em cada amor eu encontrei 
um desengano, hoje sou 
farrapo humano pela vida a vagar 

Linda Rodrigues & Aylce Chaves - 1956. 




'Farrapo humano' (The Lost Week-end) ganhou o Oscar em 1946 e foi título de música composta por Aylce Chaves e Linda Rodrigues em 1956. 

Farrapo de calçada

Há muito tempo que você não aparece
você, na certa, esquece o quanto fui sua amiga
vivo sem nada, sem um teto p'ra morada
hoje sei que eu sou farrapo de calçada

Estendo a mão à caridade desconhecida
p'ra lhe ajudar fui tudo em minha vida
por você eu sou uma alma perdida
que hoje vive a vagar sem amor, sem guarida.

de Linda Rodrigues - 1954. 

Vício 
Acende-me este cigarro, por favor
enche-me o copo outra vez da tua bebida
quero afogar na bebida um grande amor
amor que foi a derrota da minha vida

deixa falar quem quiser, censurando o que eu faço
um coração de mulher também sente o fracasso, ai
e quando o vicio envenena as entranhas da gente
não temos siquer a noção do que é ser decente. 

de Linda Rodrigues & José Braga - 1955. 


Flor do lodo

Flor do lodo, mulher de baixos costumes
ninguem ouve os meus queixumes
ninguém ve meu padecer

meu lar é o botequim da esquina
que frequento desde menina
para com os homens beber

ahi, flor do lodo
com destino mal-traçado
meus atos são meu pecado 
e a razão do meu viver

E tu, que traído por alguém
compreendes meu viver 
porque és do lodo também.

de Ary Mesquita - 1953.


Tenho moral

Não faz mal que recusem a minha visita
eu tenho profissão, eu tenho moral
não sou vigarista
Eu também tenho nome, assinei certidão
com gesto infame, 
apunhalaram o meu coração 

Não importa que digam 
que a minha vida não é decente
são dele os meus dias 
e passo as noites com ele somente.

de Linda Rodrigues & Castelo - 1960. 

Raça Negra

Salve 13 de Maio e a Princesa Isabel!
Salve a liberdade e a gente de cor!
pois  num pais tão feliz como o nosso Brasil
não estava direito o Negro obedecer ao senhor

oi, foram abaixo as senzalas
quando o som da liberdade raiou 
graças à nossa princesa que a raça negra libertou, ou oh

oi, salve salve a liberdade 
que raiou cheia de luz e fulgor
perante Deus todos nós somos iguais 
não há preconceito de cor, oh oh 

Vamos levantar as mãos p'ro céu
dando graças a Deus 
e a Princesa Isabel.

samba-exaltação de Aylce Chaves e Paulo Gesta - 1951. 






reportagem da Revista da Semana de 6 Abril 1940, onde a jovem compositora  Aylce Chaves rasga o verbo em defesa do samba e do povo do morro.



AYLCE CHAVES preferiu o samba

Revista da Semana, 6 Abril 1940. 
por Francisco Galvão.


Assistia certa razão a Noel Rosa ao afirmar que o cartaz do artista do radio vem do compositor. Ary Barroso tem feito muita gente. Ataulpho Alves também. 

Apenas queremos revelar uma das compositoras mais queridas do Rio, cujos sambas e marchas deliciaram os homens agitados da Broadway na voz bonita de Carmen Miranda. Aylce Chaves na idade em que as garotas namoram e falam de artistas de cinema prefere fazer musica popular, fazendo dupla com seu irmão Acyr.

O reporter desce na Tijuca. A rua José Hygino, elegante e discreta, esconde entre gardênias a casa da artista. Vamos descobri-la na sua vida interior, ao lado de seu inseparável violão, preparando uma marchinha. 

Simples, dona de uma graça ingênua e doce, abre-se em confidências sobre o seu interesse pelo radio. 

- Terminava o meu curso no D.Pedro II, quando  fiz o primeiro samba. Lembro-me que se chamava 'Chegou'. Cantei para as colegas; gostaram. Gostariam em verdade, ou apenas estimulariam a principiante? A dúvida esteve comigo durante muito tempo. Fui das mais sinceras 'fans' de Luiz Barbosa. E esse fato, talvez, concorresse muito para meu estímulo. Desejava melhorar o que fazia, conseguir alguma coisa bela, para que ele a interpretasse. 

- Não sou profissional. Vivo de outras coisas. Tenho de que viver. Assim sendo, prefiro passar sem tomar parte na corrida.  Tenho algumas marchas carnavalescas, mas acho mais natural que o campo fique mais vazio para quem vive da musica da terra. Escrevo por fatalismo; destino talvez. Há muita gente que faz o mesmo. Não acha?

Aylce atende um telefonema de Neyde Martins. Volta com um sorriso brejeiro nos lábios. 

- Que mais gosta do que tem feito?

- Gosto muito de 'Batucada do meu coração' e da rumba 'Yoyô já quer', do repertório de Carmen Miranda. Aprecio também 'Escravo da lua', criação de Manuel Reis. Neyde Martins interpretou um samba 'Tempo feliz que passou'. Linda Baptista canta uma marcha das que mais quero 'Boas Festas'.

- Quais são os seus artistas favoritos?

- Carmen Miranda, Linda Baptista e, do naipe masculino, Carlos Galhardo a quem dei 'A cor dos teus olhos'. A sua voz é um encantamento. 

- Como escreve?

- Quando a inspiração quer. Muitas vezes num ônibus, na rua, no cinema, a melodia chega. Entra sem pedir licença, sem bater palmas, como se fôra velha conhecida. Fica nos meus ouvidos; permanece horas a fio no meu pensamento. Ao chegar em casa, tento escrevê-la. E o samba nasce. O samba, a musica mais linda do mundo. 

- Carioca teria de querer bem ao samba.

- Paulista que sou. Creia que o adoro. Fico revoltada quando percebo a campanha impiedosa que fazem contra ele. Os falhados gostam de combatê-lo. Mas ele vai vencendo. Nova York começou a sentir melhor o Brasil quando notou o encantamento melódico de Carmen Miranda. Buenos Aires estreitou mais as suas relações de estima, depois que o samba começou a fazer parte integrante de seus programas radiofônicos. E a festa mais bonita do mundo, o Carnaval do Rio, o que seria sem a musica que vem dos morros, que flui da terra, que desce para a cidade enfeitiçando a gente nos cordões ou nas batalhas de confetti. Gosto tanto do samba que deixei de estudar medicina por sua causa. 

Meu pai, que descansa, hoje, dos seus labores do exército, queria. Eu também desejava ser colega de Alberto Ribeiro na ciência de Hypocrates. Mas depois comecei a achar o curso dos mais ásperos. Teria de estudar anatomia e conviver com esqueletos. Compor seria mais interessante. Comecei a escrever e até agora não senti a menor vaidade. Escrevo sambas e marchas, como poderia, perfeitamente ser oficial administrativo de um Ministério qualquer ou especialista de oftalmologia. Foi melhor; assim deixei de concorrer na vida pública com os homens. 


reportagem da Revista da Semana de 6 Abril 1940 sobre Aylce Chaves, compositora jovem que teve sambas gravados por Carmen Miranda e Linda Baptista entre as mais famosas. 


AYLCE CHAVES 

dois instantâneos da compositora Aylce Chaves. 


Há certos nomes que se prestam a confusões. 'Aylce', embora sonoro, também poderia pertencer a um barbado. Mas alguém nos informou de pronto que o 'barbado' é uma loura bonita, jovem e 100% feminina. 

Aylce que já escreveu versos e melodias que ultrapassam a casa dos quinhentos, um dia foi flexada por Cupido. Não foi correspondida e entregou-se ao desânimo. O travesso menino fez com que a garota deixasse de compor.  Os dias se foram passando e a reação se foi firmando no íntimo da lourinha. Pensou, refletiu e voltou triunfalmente com 'Fracassei', gravado por Heleninha Costa e que tanto sucesso tem obtido. A melodia popular é de autoria de Aylce Chaves em parceria com Peterpan

Autêntica menina-prodigio, sua 1a. composição foi lançada quando contava com 10 anos de idade! Foi Alzirinha Camargo quem a lançou. Todos estamos lembrados daquele samba gostoso que se intitula: 'Não te dou perdão'. 

A lourinha foi crescendo e com ela todos seus sucessos musicais. Em poucos anos conseguiu gravar nada menos do que 20 composições. 

Aylce Chaves também aderiu aos festejos de Momo. 'Nome manchado' é um samba carnavalesco que Zilah Fonseca gravou. 'Segue' foi gravado por Ângela Maria, 'Que bom será' por Dolores Duran e 'Não quero lembrar' por Zezé Gonzaga, nomes que o publico ouvinte aplaude sempre. 

Em 7 anos de radio, Aylce conseguiu abiscoitar cerca de 80 mil cruzeiros. É preciso que se diga que Sátiro de Melo, um dos maiorais em questão de partituras sempre acompanhou essa garota-revelação. Sátiro é 'macaco-velho' e sabe o que faz. 

Vai de vento em pôpa a vitória da loura de Itapetininga-SP. É o exemplo de força de vontade. É espelho em que se devem mirar todos que não tiveram oportunidade radiofônica. Parabéns, Aylce Chaves, já que você é o símbolo de perseverança. 

texto de Alcy Leal para o Diário da Noite. 


reportagem sobre Aylce Chaves no Diário da Noite de 27 Janeiro 1952.
Aylce Chaves escreve artigo na 'Gazeta de Notícias' de 14 Setembro 1956, homenageando o Marechal Teixeira Lott que abortou uma tentativa de golpe militar em 11 Novembro 1955, onde forças anti-democráticas tentavam impedir a posse de Juscelino Kubitschek, presidente eleito pelo voto popular em 2 Outubro 1955. Aylce tornou-se jornalista identificada com o PTB, partido politico que se tornou o maior do Brasil até ser desbandado pelo Golpe Militar de 1964.
Aylce Chaves mostra todo seu charme na 'night' do Rio. 'Diário da Noite', 24 Janeiro 1952. 
Aldacyr Louro, o parceiro mais constante de Linda Rodrigues, e seu Grupo de Samba. 
Aldacyr Louro, Sonia Mamede, empresário noturno Matteoti de Madureira & Carmen Costa.

Maldade

Estou tão triste, chegando até ao desespero
lamento a sorte tão cruel, sem companheiro
Oh Deus, será que não terá mais fim
o enorme desgosto que está matando, 
levando-me ao fim?

Vivo chorando
implorando que ele volte com gosto
triste destino está me deixando
com marcas no rosto

Passo a vida a lamentar 
tristonha, sozinha em meu lar
fugiram os amigos
com quem eu devia falar e confessar

Oh Deus, mata-me por piedade
sei que isso é um castigo
mas eu não mereço 
esta grande maldade. 

Hoje eu estou tão triste! 

Agradecimento: toda informação dessa página foi obtida com a total cooperação de Alberto de Oliveira, que é o 'expert' em Linda Rodrigues. Agradeço também ao Dino Nery por ser um dos maiores fãs de Linda, e não deixar o nome dela cair no esquecimento. 


 'Companheiras da Noite', extended-play de 45 rpm de Linda Rodrigues de 1961. 

1 9 7 0 


recorte mostra programação da TV Rio, Canal 13, da quarta-feira, 20 de agosto de 1970.

Linda Rodrigues se apresenta no programa 'No tempo da seresta', do Canal 13, TV Rio, afiliada da TV Record de São Paulo. Pensando bem, 'No tempo da seresta', seria a resposta carioca ao 'Bossaudade' feito em São Paulo e apresentado por Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro.

Com o sucesso do LP 'Recital na boite Barroco' gravado por Maria Bethania em final de 1968, e tendo 'Lama' e 'Meu ultimo desejo' como as faixas fortes do álbum, o nome da criadora de 'Lama' voltou à baila. 

Linda completara 50 anos em 1969, e não tendo mais lugar entre os jovens, mas ouvindo um antigo sucesso seu sendo tocado nas rádios, resolveu se integrar ao que era, então, chamado de Velha Guarda, que tinha, de certa maneira, voltado à moda devido ao já citado  'Bossaudade'. 

Do pessoal que cantou na noite de 20  Agosto 1970, pouco conheço Marcos Moran e Abilio Martins; o resto é só cobra: o ótimo Carlos José; Moacyr Silva, um ás instrumentista e maestro; José Ricardo, bom cantor, embora com repertório sofrível (tornou-se 'protetor' das irmãs Baptista posteriormente) e o magnifico Cyro Monteiro. Linda Rodrigues estava em óptima companhia.

1 9 8 0 


 Jornal do Brasil, 19 Maio 1980. 



Jornal do Brasil de 23 Maio 1980; na coluna de Maria Helena Dutra, aparece citação bem-humorada à apresentação de Linda Rodrigues no Cine São José da Praça Tiradentes, onde ela só aparecia a 1 hora da madrugada.

Linda Rodrigues põe as cartas na mesa... 
singer Janaína, Demétrio & Linda Rodrigues sometime late 1970s or early 1980s.

No comments:

Post a Comment